Dizem que naquele vale existiram doze igrejas.
Dizem que eram todas brancas e que em não havendo mais fieis, ou missas, ou mesmo quem uma prece por lá recitasse, combinaram um lento suicídio coletivo. As doze.
Dizem que começaram recusando-se a propagar a emoção que a cantilena de seus badalos em uníssono conseguia despertar. Dos doze sinos.
Dizem que depois disso alimentaram o flagelo umas das outras e que nenhuma delas ousou romper o pacto sinistro. Nenhuma das doze.
Dizem que eram mal assombradas, que suas portas e janelas antes de desaparecer se tornaram véus de renda, tecidas por mão enormes e hábeis que em ininterruptos dias de temporal surgiam das nuvens negras e se empenhavam em bordar e em lançar raios sem parar. Sobre as doze.
Dizem que os pássaros que buscavam abrigo no que ainda restava dos campanários, ao entrarem nas ruínas eram degolados e que suas cabeças, fossem grandes ou pequenas, decolavam em direção aos céus, como se asas tivessem. De qualquer uma das doze.
Dizer, dizem mesmo.
Na versão dos guias, um monte de entulho transformam-se em histórias fantasiosas.
Dizer, dizem mesmo.
Dizem tanta coisa que não cabe que ao turista delas duvidar.
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Olhos semicerrados, o leque movendo-se em um vai e vem pachorrento, ela aproveitaria a sesta estendida na espreguiçadeira da varanda. “E não se demore!”, resmungou, emburrada, entre um bocejo e outro.
Meus miolos cozinhavam sob o nylon superaquecido do guarda-sol. Nenhum movimento de pneumáticos deslizando sobre as pedras calcinantes. Nenhum ruído por trás das portas ou janelas. Só o silêncio abrasador. E a respiração ofegante do cão. E o toque-toque de meus passos ligeiros.
Se ainda houvesse com quem trocar palavras. Amainar a rigidez de meus músculos exaustos; amaciar o rigor das reprimendas. Uma ou duas palavras, nada mais. Talvez rir de uma piada tola. Daquelas que se ri por rir, por se estar alegre. De vez em quando faria bem.
Mas não. Nunca havia ninguém. Não às duas da tarde. Não pelas ruas suarentas e desertas. Não com a pressa exigida.
Para a criatura que trotava atrás do corpinho longo revestido de pelo ruivo, restaram as sobrancelhas cerradas, os cumprimentos descuidados, a ranzinzice despudorada. E a juventude desperdiçada no caminho entre a cozinha e a lavanderia. E a solidão das noites no cubículo abafado do velho casarão. E os fios prateados que insistiam em amanhecer colado às têmporas. E o calor das ruas do Grajaú no meio do dia.
Como eram espertos aqueles olhos caídos. Arrebatavam os corações mais empedernidos. A feição ingênua a perpetrar nas minúsculas frestas das almas insossas. Um enorme par de orelhas de abano vermelhas a vencer as barreiras da indiferença.
Coleira em punho, sombrinha sobre os ombros, o amargor a me consumir, desenhávamos um “o”, contornando o quarteirão. Um ir e vir que não nos levaria a lugar nenhum. “E não se demore!”, ecoavam as palavras duras.
No dobrar da esquina, um estirão na corda e o ganido de excitação. Os olhos lânguidos enganadores se acenderam. Vislumbrara nova vítima.
Sozinha, à mercê da sorte, presa fácil, a menina sucumbira. Os cabelos, carvão em brasa, emolduravam seu rostinho estupefato. O pequeno sedutor parecia se divertir com a facilidade com que despertava paixões espontâneas.
E não fora sempre assim? Não fora assim desde o início? Os olhares de ternura, os afagos incessantes, os cuidados extremados. E ele a se divertir, indiferente ao meu desalento. A ocupar os espaços, a se apropriar das mentes e a dominar os corações.
Não se engane, menina. Fuja! Embrenhe-se na segurança de seu lar. Não se deixe engabelar pela inocência desse ar de abandono. Ele nada quer, além de surrupiar seu bem-querer e voltar para ela. Para seu castelo de deferências imensuráveis. Para o aconchego de um colo que eu mesma jamais havia experimentado. Não se engane, menina. Deixe-o seguir. Deixe-me voltar.
Ademais, não posso me demorar.
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De euforia eram banhados nossos ansiados reencontros.
Aguardavas-me iluminada. Uma réstia de sol esgueirando-se pela fresta da cortina.
Eu exalava saudades, tu, perfume de maresia.
Quão indolentes eram aquelas manhãs de neblina e de ventania.
Nos carnavais afogueados, festa na alma e coração a gargalhar.
Eu, peito pulsante, tu, porto remanso.
Quantas luas prateadas pontilharam estradas tremulantes na escuridão infinita.
E os pores de sol incendiando a umidade do imenso paredão enquadrado na janela?
Eu, puro êxtase, tu, plácida cumplicidade.
Nas noites de ressaca, urrava o mar bravio, uivava meu peito aflito.
No mais, a calmaria, o bailado das gaivotas, a reverência das folhas da velha palmeira.
Eu, inocente ilusão, tu, gentil complacência.
E eis que o talho certeiro de uma navalha afiada pela mesquinhez cindiu o cordão umbilical.
Restou-me a lágrima salobra e o perambular incerto após a porta se cerrar.
Eu, chaga incurável, tu, eterna e doce lembrança.
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Dia desses a tal da “melhor idade” invadiu minha vida em quarentena e me abraçou forte, ignorando as regras do isolamento.
Impotente, deixei-me envolver. Dei-lhe um sorriso conformado e a tomei como amiga, para o resto dos meus dias.
Devo dizer que ela me encontrou assustada em meio a utensílios domésticos que, escarnecidos, desafiavam-me. Logo eu, tão consciente de minha capacidade acadêmico-administrativa, sucumbindo a prosaicos baldes, vassouras e panelas?
Para meu alento, os generosos sessenta anos, comemorados em festinha virtual com a família, trouxeram-me de presente um pouco de serenidade.
Enfim, entendi que a paciência que eu nunca entrei nas prateleiras da farmácia da vida para vender, pode ter conotação positiva.
Daí para me permitir novas competências e melhorar antigas habilidades, foi um pulo. As lições de equilíbrio e de moderação que Platão e Aristóteles me apresentaram na tão longínqua juventude, enfim, estão sendo colocadas em prática.
Geminiana, curiosidade insaciável, olhos sempre arregalados, irrequieta e sedenta de afeto, me reinvento à falta de abraços, de estar junto, do olho no olho e dos chamegos nos sobrinhos, os filhos que não gerei.
Socorro-me na calmaria da maturidade. Vai passar! Tutto andrà benne, diz-me a família italiana do marido. E eu acredito! E me agarro à esperança como a uma prancha de surf sem parafina. Cuidados redobrados para não tombar.
Nessa temporada de incertezas e dores, confiando em que palavras são armas de resistência ao ódio e ao desalento, dedico à escrita parte do tempo que sobra da nova rotina. Terapia segura para alma e coração.
Enquanto a realidade se desnuda nas ruas, busco por quem sou no espelho de casa. Ao me deparar com os fios vermelhos ocultando minha essência, toso a juba e assumo os grisalhos. O ruivo da química, que todos diziam combinar mais com a tonalidade de meus olhos, não cabe mais na mulher que me pretendo.
Prioridade em punho, curto a companhia do marido, enquanto espero, sem ansiedade, a hora de reencontrar quem me é caro e me satisfaz.
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