Ethel

 

22 Abril - 35º dia do Estado de Emergência

Condillac começa o seu livro célebre, «Por mais alto que subamos e mais baixo que desçamos, nunca saímos das nossas sensações». Nunca desembarcamos de nós. Nunca chegamos a outrem, senão outrando-nos pela imaginação sensível de nós mesmos As verdadeiras paisagens são as que nós mesmos criamos, porque assim, sendo deuses delas, as vemos como elas verdadeiramente são, que é como foram criadas. Não é nenhuma das sete partidas do mundo aquela que me interessa e posso verdadeiramente ver; a oitava partida é a que percorro e é minha. ( Do Livro do Desassossego)

 

Os meus amigos estão silenciosos e eu tenho dificuldade em notar o que  sinto. Viajar o mundo porque nestas quatro paredes ele se torna pequeno. Já o viajei mil vezes, tantas quantas estive deitada num sono inebriante. A infância e o medo de ficar descalça. No corredor de um boeing os meus sapatos no nariz do avião e eu criança sentada no rabo dele.

- O que mais vais esquecer? perguntou-me a avó Zuzu. Os sapatos são para estar nos pés. Obrigada, senhora hospedeira. Vê agora se não os voltas a tirar.

Passei o resto da viagem com os pés apertados. Adoro ficar descalça mas depois lembro-me daquela terrível sensação como se o chão fosse brasa.

Em poucas horas, a simpática aeromoça da Varig passou a ser tratada por hospedeira e a minha vida deixou de ser falada  em  brasileiro.

- Quando é que aprendes a falar? perguntou-me um amigo há poucos anos. Já é tarde, respondi. Cada vez sei menos.


Uma criança com 8 anos é enviada para a casa dos avós por seis meses. Porque razão? Nem os meus pais sabem explicar. Numa Lisboa cinzenta e beata, a prima Maria que sempre foi velha,  guardava o terço no bolso da sua saia para qualquer eventualidade. À noite chamava-me para rezarmos em frente a uma imagem. Deus me perdoe porque peco todos os dias. Benzia-me em cada porta que abria. Não fosse o Diabo tecê-las, o pecado está sempre à espreita. Cruzes!


- O que fizeram a esta criança? perguntou o pediatra, que também me esperava no aeroporto de Viracopos, no meu regresso à casa dos meus pais.

Como se explica a um adulto que não é suposto uma criança escutar semelhante pergunta? O que fizeram com esta criança?

Deram-lhe sopa e terços intermináveis. Não comes a sopa? Vais comer o dobro. Não comes o peixe e a carne? Não sais da mesa até o prato estar limpo e  não te damos a sobremesa! Deus existe e está em todo o lado. Não tens safa porque ele vigia cada um dos teus passos. Treina o remorso, reza e pede desculpas porque ele é misericordioso. 


Regressei a São Paulo pouco tempo depois do assassinato de John Kennedy. Lembro do anúncio na TV portuguesa. Ouvi o grito do meu avô e corri para a sala. Faltava pouco para eu voltar para casa. Um ano depois o golpe de 1964 e a nossa mudança para Fortaleza. 


- Pai, porque me mandaste para Portugal tão criança?

E tu ficas surpreso, sequer entendes a pergunta. Só queria o teu bem. Ias estudar na Europa. Então reparo que tu também sofreste, que tiveste saudades e que te foi difícil. Ainda assim repetiste a façanha com os meus irmãos. O privilégio não foi só meu.


Quantas coisas absurdas fazemos convencidos de que estamos a beneficiar os nossos filhos? O peso e o desnorteio de responder adequadamente à expectativa dos meus pais foi me acompanhando pela vida. Quem cuida de quem?


- Fui boa mãe? perguntas-me. É claro que foste a melhor do mundo. 

Quem não erra? O teu medo nasceu com a história do teu povo. Desde criança que escuto que viemos de um povo perseguido. Há quem de uma forma ignóbil diga que foi esse medo que alimentou o nazismo. Aprendemos a contornar a tormenta  e a resistir na calada da noite. Deram-nos uma estrela para colocar ao peito e nós afirmamos que somos eleitos. Sempre tive dificuldade nessa relação de perseguido versus eleito.
Eu não quero saber disso, diz o Henrique que adora os sírios. A única discórdia é sobre a origem do falafel. Sírio ou israelita. 


À medida que os anos passam e a velhice se instala, reconheço parte do que sou na estória da minha família judia.

- Avó casei-me com uma árabe. E agora? brinca o meu sobrinho cineasta.


O que tem isto a ver com o COVID 19 e o teu piano filha, que depois de ficar fechado alguns anos, vendi para pagar dívidas?

De novo, o arrependimento a morder-me.

O COVID? Eu sem te poder ver, filha.



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Primeiro, partiu uma corda do piano e depois a do violino, não deixando intacto o violoncelo, nem o violão e o contrabaixo da banda. 
No palco, os músicos calaram o compasso em falta, e na pista os casais colaram os corpos. 
Tum, tara tara, tum, tara tara, tum, tara tara, tum tum. O som sincopado do coração.
Com a tempestade as madeiras estalaram não deixando um só instrumento vivo.
Tum, tara tara, tum, tara tara, tum, tara tara, tum tum. 
Veio de longe e manso, o saxofonista.
  • I love sax, disse a moça solitária com saudades de amar.
Tum, tara tara, tum, tara tara, tum, tara tara, tum tum.


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A CANJA DA MAMÃE
Olha para o céu e eu tento adivinhar o que ele vê para além das estrelas. No bar, pede um copo de vinho e um pastel de bacalhau. Enquanto bebe repara nos beijos do casal em frente. Olha para o relógio e lembra-se da canja que a sua mãe fez acreditando que ele chegaria cedo. Diz-me que está na hora de partir. Antes que ele saia, pergunto:- O que você vê no céu?
- Uma mulher flutuando sem destino aparente.
Penso nele quando o meu olhar se perde nas nuvens e eu descubro as asas de uma mulher em busca do seu caminho.
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TRIBO 
A Paula e o Zé Edgar, meus irmãos, são filhos da Rosa e do Fernando. Netos da Fanny e do Schmil, poloneses fugidos da guerra, e da Zulmira e do José Silva,  família de ferroviários de Vila Franca de Xira. 
Sobrinhos do Isaac que também era Jacob, casado com a Maria Luísa, uma operária sobrinha do Lamarca, resistente-guerrilheiro. Primos dos gêmeos Luis e Carlos, em honra de Luís Carlos Prestes e do caçula João Paulo, em honra dos Papas João XXI e Paulo VI.

A família cresceu entre a Polónia, Brasil e Portugal. Quem a ela se juntou, trouxe Angola, Cabo Verde, Colômbia e por herança o Líbano.
A Paula casou-se com o António, neto de um padre, a Ethel com o Raul, neto de um aventureiro espanhol e o Zé Edgar com a Eduarda, filha de um coronel de cavalaria. 
Sara, a filha mais nova da Paula e do António, está  casada com a colombiana Maria, e o André,  filho mais velho casou-se com a Patrícia de origem cabo-verdiana. 
Carla, a filha da Ethel e do Raul,  é casada com o Ivo, músico português, filho de um dentista brasileiro. Entre a Sara e a Carla, aquele que dá pelo nome de João, filho do Zé e da Eduarda,  casou-se com a Renee, brasileira de origem libanesa, na esperança que judeus e árabes se reconheçam.
No Tocantins, a Mira, a filha do João e da Renée, tem mais uma família, a dos índios Krahô, que aí ganha o nome de Piña. Em Lisboa, o Duarte, filho do André e da Patrícia, tem primos e tios cabo verdianos.

A família tem de tudo: Judeus, cristãos, ateus e comunistas, músicos, escritores, motoristas, cineastas, ferroviários, vendedores ambulantes, atrizes, cartomantes, meditadores, empregados e desempregados. 
Nem todos se falam, nem todos se amam da mesma forma, uns discutem, outros se beijam. 
E por vezes celebram em conjunto a loucura que os assiste.

Não sei como o Zé  ganhou o teu olhar, pai. Revira os olhos quando tem a certeza do que fala e aos poucos ganha a tua tranquilidade. A Paula sorri como tu, pouco se importa se está ou não de acordo com as convenções. Quando foi que te desdobraste neles, pai?
Revejo em mim a tua gargalhada, o mesmo encolher de ombros que se diverte com o circo. As palhaçadas. Será este o milagre da eternidade de que tanto escreves? Como era mesmo a tua cidade, pai? Conta-me, repete-me para que eu não me esqueça. Conta-me, pai que o que parece lamento é também esperança e os que hão de vir, possam sonhar o devir.

- Aurélio, eu gostava de viver numa cidade à beira-mar. Não estou a falar da Capital, mas de uma outra cidade que está à minha espera. Cheia de altos e baixos, uma igreja em cada monte. Todas as semanas eu visito uma, Deus marcou-me encontro. Os meus filhos... Sim, porque nessa cidade eu tenho muitos filhos. Os meus filhos andam na pesca, em casa não falta o que comer. E quando há excesso de comida, em vez de irem ao mar, ficam mas é deitados nas redes do alpendre, a balançar. Todos têm o vício do balanço. Tenho um filho preto casado com uma preta. Tenho um filho branco casado com uma branca. Tenho um filho mulato casado com uma mulata. Mas também tenho um filho branco casado com uma preta, e uma filha preta casada com um branco. Tenho uma filha branca casada com um mulato e tenho um filho mulato casado com uma branca. Tenho uma filha preta casada com um mulato e tenho um filho mulato casado com uma preta. Tenho seis filhos e três filhas, tenho trinta netos de todas as cores, uns brancos, outros café com leite, mais leite menos café, menos leite mais café, outros cor do tição. Não sei o nome da cidade mas gostava de saber. Antes de morrer hei-de saber. Uma vez por ano, no dia de Sant'Ana, no dia da Santa Avó de Deus, levo os meus trinta netos à catedral que fica lá no alto. Todos de mãos dadas e muito comportados, até parece que os traquinas entendem que é coisa séria... Homens e mulheres de todas as cores vêm fazer uns tagatés nas trinta cabecinhas. Há muitas velas, anjos dourados que parecem voar. Depois um órgão começa a tocar e nós cantamos. Ficamos de bem connosco e com os outros. Acaba a festa e descemos a ladeira, algazarra muita. Paro em nove portas a entregar os meninos e as meninas aos seus pais. Recebo nove prendas, muitos beijos e abraços. Um colar de missangas, uma blusa de renda, uma saia com flores, um turbante muito branco, um xaile com ramagens, um pote com doce de coco, uma colcha de retalhos coloridos, uma bolsa com tabaco perfumado, e um livro sobre os cavalinhos brancos. Como aqueles que antigamente havia aqui no Condado. Peço e o meu neto mais velho lê o livro. Não acredito! É tudo má fantasia, não pode haver terra onde os homens usem freio na boca e sela nas costas e onde os cavalos corram sempre em liberdade... Olho para o mar e não acredito. Ainda bem que eu vivo, com os meus, naquela cidade onde gosto de viver.  Aurélio, tu és um menino muito viajado. Por acaso tu conheces o nome da cidade que sonhei?
César arrepiado com a fluência do discurso de Sara. Mas respondeu:
- Não, não conheço, não há cidade assim. Mas vai haver, Sara, vai haver...
Este livro, é teu mãe.Testemunhas os meus devaneios, esperas que eu me acalme e cale, para sem pressa tomares a palavra.
Após a chegada ao porto de Santos, depois de um mês em casa dos teus pais, deram-vos uma casa para começar a vida, no Jardim São Paulo. Vocês viveriam da arte. Tu, enquanto pianista e o pai enquanto escritor.
“Ninguém vive da arte..”, ouvi quando já tinha 16 anos. Como foi que isso aconteceu, mãe?
A vida foi ditando as minhas escolhas, dizes. 
Quando o teu irmão nasceu, o maestro Tabarim disse-me:  “ou você é pianista ou mãe.”
O teu pai começou a trabalhar na Folha de São Paulo. Lá ele fundou a Folhinha, um suplemento infanto-juvenil. Antes tinha trabalhado na Editora Cultrix e logo em seguida com o Sidónio de Muralha e o Fernando Lemos criou uma Editora para o público infantil, a Giroflé. Um projeto de vanguarda que teve vida curta. A Televisão da Bicharada, foi a estreia da editora. Um livro de poemas da autoria do Sidónio, com ilustrações do Lemos. O teu pai escreveu O Sindicato dos Burros, ilustrado pela Maria Bonomi e a Cecília Meireles assinou o último livro da Giroflé, com o ‘Ou Isto ou Aquilo’. Depois aconteceu o Golpe de 64 e nós tivemos de ir para Fortaleza. O Zezinho Prado ajudou-nos. Contratou o teu pai como gerente de uma fábrica que era da sua família. Longe da atividade política e da falência da Giroflé.
Em Fortaleza, o Fernando ainda escreveu A Cor dos Homens, uma novela publicada pela Cultrix. Eu não trabalhava. Tomava conta da casa. Tínhamos uma vida estável, pela primeira vez. 
E o piano, mãe? Nunca deixei de tocar.
Ficámos pouco tempo em Fortaleza. Passados dois ou três  anos, o teu pai, quis voltar para São Paulo. Sentia falta do meio editorial. Mas São Paulo já não era a mesma cidade. A ditadura se instalara. O teu pai teve vários empregos e despedimentos e eu fui vender de porta em porta. O meu primo Isaac tinha uma confecção. Comecei por vender nos apartamentos do nosso condomínio, na Aclimação. Depois atravessei a rua e bati todos os outros prédios do nosso bairro.
E o piano, mãe? Nunca deixei de tocar.
A clientela cresceu e eu fiz uma boutique no quarto do Zezinho. Era um alvoroço. Mas tínhamos dívidas e dívidas e o teu avô Silva, convidou o teu pai para regressar a Portugal e tomar da empresa que ele tinha construído. Vendi a carteira de clientes, pagámos as dívidas e viemos para Portugal.
E o piano, mãe? Vendemos.
Traída a promessa da terra prometida, Deus perde-se nas contas de justificar.

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WE ARE THE WORLD

Cantava um grupo num Centro Comercial. Algumas pessoas filmavam, outras balançavam o corpo, e na hora do refrão todos os presentes abriram os pulmões. 

E eu que já me cansei de ver as repetidas versões destas atuações, de repente me emocionei. Rodei o corpo na cama e chorei. A saudade que tenho de ser gente!

Vamos tomar um café? Deixo a mão em cima da mesa e o gel ao lado para depois de todas as nossas carícias.
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Uma flor sem casaco, nem lapela, é um escândalo na cabeça. Uma tarde inteira sentada no banco do jardim esperando por ninguém. O homem do algodão doce fez-lhe uma nuvem verde. Juntos são a bandeira do Brasil. Quem se lembra de cantar o hino nacional num parque infantil? Ela! A moça chinesa, com soquetes brancas, a boca vermelha e uma flor amarela na cabeça.

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Desaparecidos e desconhecidos. Contar o que falta
Quanto tempo se passou desde a última vez que te vi? Acredito que menos de um mês e o tempo no teu corpo mede-se outro. Será que é o calor que te coloca nessa letargia e te impele a fechar os olhos enquanto tentas terminar uma frase? Quero acreditar que sim. Se vivesses debaixo da minha neblina estarias mais desperta?
Quero pousar a minha cabeça no teu colo com vontade de só ser filha, mas tu dormitas e qualquer esforço te cansa. 

A Sofia diz que amanhã traz-me uma sopa feita com a cabeça da garoupa. Eu agradeço e lembro-me de ti, mãe. Na minha primeira crise conjugal perguntaste-me se eu fazia o jantar.  A comida ilude o vazio que vai-se instalando com a tua ausência. Hoje parte de ti esteve longe e parece que será assim até que viajes para sempre.

No fim seremos todos eternos, na presença e na falta. Quantos nomes faltam nas listas dos mortos em Auschwitz? Anónimos que assim permanecerão para sempre.

Alguns primos da minha geração desconhecem que tivéssemos tidos familiares vítimas do Holocausto. Terão os seus pais achado que não seria importante contar? Morrer num campo de concentração será apenas um detalhe?

Uma prima escreve-me:
Não conheço nenhuma história de familiar morto em campo de concentração. As histórias que conheço são de pessoas que vieram antes de 1930. Fugiram da miséria!

Não fosse a descoberta de Miguel, ninguém saberia do depoimento que a Liptche, irmã da minha avó, fez para o Livro Memorial de Ryki:

Já se passaram quarenta e dois anos desde que deixei a minha cidade natal, Ryki, onde dei os meus primeiros passos no mundo divino. E embora tantos anos tenham se passado, eu tenho a cidade vívida diante dos meus olhos. Os meus pensamentos sempre voltam àqueles tempos, às pessoas que viviam lá, queridas ao meu coração.
Pessoas  essas que tiveram mortes horríveis e é nosso dever lembrá-las. Temos que escrever sobre as suas vidas, os seus sonhos, sobre belas tradições, sobre dias bons e difíceis, sobre sofrimento e alegria, sobre fé e esperança, sobre um futuro melhor.

Esta é a tua avó a falar, prima. Carrega a nossa família o peso do silêncio. Lê e descobre onde nasce a dor que não sabes de onde vem..
O nome do meu pai era Isaac, a minha mãe se chamava Ryfka, "a fazedora de chá". Éramos sete em casa: três irmãos e quatro irmãs. Meu irmão mais velho, Mosze-Jankiel, morreu com toda a família. Minha irmã mais velha, Ester, deixou este mundo jovem com três filhos. Meu pai sucumbiu de dor e morreu sete meses depois dela. Isso influenciou a vontade de buscarmos a felicidade em outros lugares.
Repara, prima, que não se era errante por vontade própria. A perseguição era uma constante.
Antes da Primeira Guerra Mundial, os judeus foram expulsos de Ryki por serem suspeitos de espionagem. Assim partimos para Żelechów. Chegámos à noite e não tínhamos onde descansar. No dia seguinte, tivemos que levar a carroça de meu pai de volta para Stoczek. A viagem foi longa e era uma sexta-feira e como os meus pais não queriam manchar o shabat, foram até um arrendatário judeu que nos cedeu um celeiro onde pudemos celebrar o nosso primeiro sábado errante. No domingo, foi emitida uma ordem para nos apresentarmos a Żelechów e ficámos lá por várias semanas até recebermos permissão para retornar a Ryki.
Depois de algum tempo fomos expulsos novamente e depois fomos para Kock. A estrada era muito difícil. Os caminhos estavam cheios de soldados e fomos forçados a parar em casa de um primo em Łysoboki, até podermos voltar para Ryki.  Nesse período a  sua filha de treze anos adoeceu e morreu. 
Nossa jornada não terminou aí. Após um curto período de tempo, os judeus foram expulsos de Ryki novamente. Desta vez fomos para Garwolin onde já havia muita gente das cidades vizinhas e não havia lugar para nós. Meu pai estacionou o seu carrinho num grande quintal e foi aí que o habitamos como se fosse um apartamento.
Demorou muito até que os alemães ocupassem toda a área e então voltámos para casa. Felizmente encontrámos nossa casa inteira, possivelmente porque vivíamos entre cristãos. A maioria das casas foi saqueada e destruída.
Da tua memória, só recordas que os nossos avós eram pobres. Mas ser pobre e judeu parece, segundo algumas crenças, ser um contrassenso.
Para ajudar na economia da casa, comecei a trabalhar quando tinha onze anos, a tomar conta dos filhos dos pais que tinham banca na feira.
Passado algum tempo consegui outro emprego. Carregar cestos de galinhas para o matadouro. Não era um trabalho leve para uma menina de onze anos.
Meus pais não quiseram o dinheiro que ganhei. Com treze anos tinha o suficiente para ter minha própria barraca no mercado e alugar uma loja em Symcha Lejzer. A loja estava aberta a semana toda. Fiz uma boa clientela e ganhei bastante.
Chegámos ao Brasil em 1929. Nossa irmã mais velha Fajga já aqui estava há mais de um ano. Antes de deixar Ryki, colocámos novas matzevot nos túmulos de nosso pai e de nossa falecida irmã Ester. Apesar da difícil situação em que estávamos em Ryki, não foi fácil abandonar a cidade onde vivemos nossa infância e juventude.
Mamãe, os três filhos pequenos da minha irmã, com o pai e Sora Macze viajaram conosco. Vendi toda a mercadoria da loja e com muita dificuldade arrecadámos a quantia que era necessária para a viagem.
E esta é a parte que para ti não existia, prima.
Viemos para a cidade de Santos e de lá partimos para São Paulo. Antes de conseguirmos organizar um pouco as nossas vidas, tivemos de passar por muitos dias e noites difíceis. Assim que nos recuperámos, enviámos os documentos para os nossos irmãos Pinkas e Szmul. Ambos vieram sem família. Pinkas mandou a carta de chamada para a esposa mas infelizmente eles não conseguiram vir porque a guerra estourou. Morreram todos, vítimas da brutalidade nazista.
Minha mãe morreu em 1958 aos 90 anos. Durante toda a sua estada no Brasil, esteve sempre conectada com a sua vida em Ryki. Lia literatura iídiche, o tempo todo. Foi nas obras de Peretz e Szolem-Alejchem que ela encontrou consolo espiritual.
Perdemos uma grande família na Polônia. Entre as vítimas estão o meu irmão Mojsze-Jankiel com sua esposa e filhos, Gedalia Anfanger com sua família, Sora "Łazienna" com sua família, a esposa de meu irmão Pinkas com três filhos. E o irmão de meu pai, Mojsze, com sua esposa e filhos. Meu tio Dawid Szmul com sua esposa e filhos. As irmãs e cunhados de meu pai com suas esposas e filhos. Todos vítimas do nazismo. Não deixo de lembrar que alguns poloneses não eram melhores do que os alemães.
Em São Paulo, a nossa família cresceu. Os filhos de minha falecida irmã Ester se casaram e já têm filhos. Minha irmã mais velha Fajga também tem uma grande família. Casei, tive três filhos e já tenho netos. Nossos laços familiares em São Paulo são muito fortes. Uma profunda amizade, unidos por um passado comum em nossa cidade de Ryki.
Ninguém sabia deste depoimento da Liptche, que no Brasil ficou Elisa. Cumpre agora a tua parte, prima. Acorda.
No final da década de 70, Maria, uma moça que trabalhava em nossa casa, disse:
Já trabalhei numa casa de judeus. Eles enterram os mortos em pé. No cemitério há muitas campas assim. Todos em pé. Um dia vi um túmulo com o nome da sua avó: Micosky, não é?
A minha mãe chegou a equacionar a possibilidade de um dos seus familiares desaparecidos estar enterrado em Lisboa. A eventualidade de que um dos seus, ainda que morto, pudesse mudar o estatuto para aparecido, fez disparar a esperança.
Junto com a Paula, minha irmã, percorremos todo o cemitério judaico no Alto de São João. Nem um nome sequer aproximado de Micosky. De novo a tristeza na face da minha mãe. 
Enterramos os mortos. Procuramos os desaparecidos até nos cansarmos da busca. Os anos passam, a dúvida persiste. Pode ser que esteja vivo. Será?
A história está repleta de pessoas eclipsadas por imposição de outros. Os presos políticos que foram afundados na Baía da Guanabara, os que foram torturados até à morte e depositados numa vala comum, os refugiados que morrem na praia, no meio do oceano, nos campos, seja onde for e de quem se perde o rasto. Aqueles cujo nome pouco importa.
Na casa de Susana, há uma parede repleta de retratos dos companheiros desaparecidos durante a ditadura militar no Brasil. Definitivamente mortos, todos têm um nome, uma família e uma estória.
Tenho medo de morrer, dizes. Não nos queres deixar. Respondo-te que ainda falta muito, mãe. Encolhes os ombros. Sabemos ambas que não.
  • Já tenho cem anos, filha?
  • Ainda não. Faltam 10, mãe…
  • Então ainda tenho tempo para contar o resto.
Um sorriso doce e voltas a dormir.




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CLEO, VULGO DINO



Não fosse o bigode seria mulher,
o meu irmão
a primeira dama do salão
agora nada com os tubarões,
na ilha das Flores.

Se o chamo para a cidade
aparece com o escafandro
como se fosse um peixe
preso no ar, procurando respirar.

E sempre que nos vemos
mesmo que de ano para ano
damos as mãos e isso nos basta.


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Hoje, os patos chafurdam entre as canas
O meu irmão mora com quatro mil deles
Quando nos vemos damos as mãos
Como fazem os peixes debaixo d’água.

Quando vem a Roma, esmorece
Um pássaro preso em sua gaiola.


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Quatro mil patos e eu no mesmo charco
Selva de pedra, o meu irmão e eu, dentro de grades.

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AS ASAS DE UM BEIJO VOADOR

Já passava da meia-noite, quando o teu beijo venceu-me.
Que importância tem se me fez acreditar em Deus?
Nessa noite atravessei a serra de Sintra num planador.
Depois foram os outros dias que não tinham fim.
O meu corpo com asas sem saber voar.

O passado tem mais do que uma versão, a que se sonha ter vivido e a que nunca aconteceu. Como a saudade e o tremor do amor.


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(outra versão de "Tentação")

Como não te trair falando de Ruivo? Ainda que omita o teu nome, que não refira o teu bairro, nem o ponto do bonde. 

Como poderei falar desse amor que vos deixou sem ar ou sequer um ai, à beira do êxtase? 

A tua estória correu mundo e quem por vocês passou naquele momento, sentiu um aperto no peito. Ainda que até hoje acredites que só houve um intruso entre os dois. O compromisso de quem escravizado não se liberta.

Ruivo tinha a tua cor, o vermelho generoso da rebeldia. Alguém que podia ser contigo, família.
Um irmão que esteve perdido numa casa que era dele, por engano.

Bastou sentir o cheiro e o teu coração acelerado para ele ter a certeza da maldade do seu destino. Nem sempre nascemos no lugar certo. E no entanto sabia-se preso, como só um cão sabe ser, sem nunca questionar o dono. De alguma forma também tu o soubeste quando o vosso olhar se encontrou..

A tua bolsa velha e sem alças caiu do colo, como se fosse um lenço à espera de ser apanhado, e Ruivo olhou triste para ti e o chão. Tinha trela suficiente para apanhar a bolsa, mas virou costas. Seguiu caminho ao lado de quem se entitulava ser seu dono.

E tu, menina-mulher, vislumbraste a vida.







TENTAÇÃO

Não lhe dou mais de um metro de trela, é abusado. Nada difere das pessoas que não sabem o seu lugar. Damos um dedo e querem toda a mão. Não basta ser bonito e ter um pêlo que causa inveja ao melhor dos mortais. Ainda que que seja um cachorro. Tem, como tantos outros simplórios, cama e comida. Do fundo do meu coração gosto dele.  

Estou perdendo a visão e o médico antecipou-me a solução. Em vez de uma bengala...
- Um cão. Disse ele animado. Um negócio lucrativo tem o meu oftalmologista e o irmão que é veterinário.

Nunca me senti tentada por nenhum animal. Um sobrinho trouxe-me este vaidoso. Numa terra de pretos, brancos e cinzentos este destaca-se pela cor. Um vermelho indecente.
-Tia, este é o Ruivo…
Já vinha treinado. Deixei que Pedro, o meu sobrinho, tratasse de tudo. Quando eu estiver cega, será ele a guiar-me. Poderá alguém no seu pleno juízo entregar o seu olhar a um cão?

O Ruivo está quase sempre feliz. Há momentos de profunda tristeza. Mas isso é o Pedro que acha. 
-Os olhos de Ruivo chegam quase ao nariz, tia. Tens de ser carinhosa…
Encolho os ombros, mas digo-vos que bem no fundo do meu coração gosto deste basset ruivo.

Passeamos todas as manhãs. A trela sempre curta. Se ele se entusiasma, joga-me no chão. Neste bairro de ninguém restam os velhos como eu. Cortinas corridas nas janelas, anunciam a luz da tv. Seja manhã, tarde ou noite. Na rua ouvem-se, sempre dissonante, as vozes concorrentes. Quem quer ser milionário, ou a conta certa de quem chegou ao fim da vida cego e surdo.

-Ruivo, cuidado!
Puxo a trela. O cão está agitado. Na esquina, nos degraus de uma casa, uma cadela vermelha. Perdão, não! Os meus olhos estão cada vez mais cegos. Uma menina com os cabelos da cor do pelo de Ruivo. Parecem irmãos. Como pode alguém parecer-se com um cachorro?

A Ruivinha e o Ruivo trocam olhares. Como se isto fosse possível! 
-Ruivo? Deixa a menina em paz…
Ruivo senta-se na calçada e não arreda pé. Conversam em silêncio. O que pode uma menina dizer a um cão e ouvir a resposta?
-Não, não vais embora. És meu, Ruivo. Paguei uma fortuna ao treinador…

Vi então os olhos do meu cachorro ganharem o nariz. Deve ser essa a tristeza que Pedro referiu. Um golpe de consciência fez Ruivo levantar-se. Sem a menor vontade virou costas para a menina e seguiu comigo. Nunca olhou para trás. 

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ABRAÇO


Durmo na Praia da Aguda. Abro a janela da motorhome e vejo o mar. De manhã acordo com a praia deserta. Ninguém com quem falar. Tiro a roupa. Mergulho no escuro. Regresso num leve arrepio, com frio. Café na casa com rodas. Uma banana e o pão bio feito com mandioca. 
Um dia em cada vila, uma noite em cada praia. O fio do trapézio que atravesso de olhos vendados. Subo a colina sem esforço. O riacho perto de casa. As meninas e Eu. 
Ela trouxe as crianças e o cão. Dois garotos pequenos que não deviam ter mais de 6 anos. Correm ladeira abaixo sem medo. Quem cai, na maior parte das vezes levanta-se. O único perigo aqui são as pedras que rolam da arriba. Pedaços gigantes de rocha que não se aguentam coladas. As rupturas são assim. Uma explosão que nos impele a partir. Sermos outros, noutra morada.
Não sei o nome dos gaiatos. José, Francisco, Manuel, Bernardo, Rafael? Depende de onde vêm os pais. A Ivani batizou a criança de Ingrid. Uma rainha sueca que ela admirava. Amamentou a minha filha e a dela. Em pouco tempo sonhou que amamentava um orfanato e o seu leite secou. 
  • Chico, grita a mãe. Cuidado!
A mãe de Chico usa um biquíni preto em contraste com os cabelos louros.
Nesta praia não se pesca, nem as gaivotas se atrevem e os surfistas reclamam da cadência das ondas. Um vira-lata cheira quem passa. Seja adulto ou criança.
Francisco e Caetano, brincam aos cumprimentos. Quem é homem sabe como se dá uma palmada nas costas. Não são como os teus abraços a budista, diz o meu sobrinho. Não ficamos horas com o peito colado no outro e a cabeça apoiada no ombro. 
Os homens empinam o rabo para trás e batem-se nas costas. Mas só entre eles, porque quando uma mulher se deixa abraçar, todo o corpo sente.
  • Caetano, cuidado!
Os dois garotos riem. Uma pequena gruta e o mistério de um lugar por explorar. 
Francisco e Caetano ouvem o eco das suas gargalhadas. Assustadora é a nossa voz multiplicada e ampliada. Onde se esconde o medo?
  • Caetano?
  • Mãe, ãe, ãe, ãe, ãe, e,e,e,e…
Francisco esconde-se e Caetano finge que não o vê. Semelhante é o ser humano desde que se conhece pessoa. Caetano grita:
  • Francisco!
  • Franciscoooo, cisco, cisco, ciscoooooo…
Os dois caem na gargalhada. Ambos sabem um do outro. A brincadeira é fingir que não, sabendo que sim. E fim, a alegria do encontro. Um abraço à homem, outro mais forte, e outro com mais impulso. Uma dança que não esgota. As faces das crianças ganham cor, a respiração confunde-se com o riso, agora nervoso e na cadência do movimento, uma estalada, outra bofetada e ainda o riso que se confunde o choro.
  • Caetanooooo! Os meninos não se batem...
Interrompidas as crianças, retomam a respiração.
  • Vá, agora um abraço!
  • Oh, mamãe. De novo? Fizemos isso a tarde inteira.

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Rosa, estou me apagando. O encontro.

A montanha prepara-se para receber a neve, o pastor veste a pele do animal que matou porque o frio pede calor. As andorinhas batem asas para invernar em África. A farinha está fina porque foi encontrada a cadência do grão. Com azeite amassaremos o pão. Azul seremos todos, malha que não se desfia, fio que não se descobre a origem. Linho que nos veste o corpo e as velas da nossa embarcação. 

Morreste no primeiro dia das minhas férias. Faz hoje seis anos. Choro a tua morte e no dia 28 de Julho celebro o teu aniversário. Dez dias apenas entre morrer e nascer. 

O facebook ajudou-me a não ter que fazer inúmeros telefonemas.
Meu pai faleceu esta manhã. Estaremos na casa mortuária da Igreja do Campo Grande a partir das 15h30. O funeral será amanhã às 14h30.

Parece que dormes. Não fossem os móveis que nos rodeiam fazendo de nós mobília, tudo estaria certo no lugar certo. Dois passarinhos de origami feitos em papel japonês substituem as flores que não comprámos. 

Retomo o prólogo do teu último livro, que não publicaste:
“Alguém me diz:
- Dorme!
E eu durmo. Melhor dizendo: sonho que dormindo estou. Sonho que o meu corpo é todo terra. Sonho que me revolvem, enxadas, pás, ancinhos e atiram-me para dentro de uma caixa de madeira quatro vezes mais comprida do que larga. Sofro cãibras, muitas, e essas já estão fora do sonho, vontade tenho eu de acordar.” (FCS)

Não me tomes como exemplo, avisas. Deste-me o novelo e eu desenrolo, mostras-me o labirinto e dizes que eu consigo sair. Perguntas pelos nossos, e eu digo-te impaciente que está tudo bem, dentro do que é possível neste contexto. 
Vais encontrar a saída do labirinto, há linha suficiente no novelo que te deixo, dizes.

É de linho a roupa que te veste, corda de sisal que a sustenta. Caminha, que longe não me canso de seguir-te. Que o teu destino é também o meu. Por mais que te adiantes e eu me atrase. É de todos o linho que a morte tece. 

Como escrever sobre quem és e tu dizes que cada vida tem que ser contada como se fosse um romance. Portanto, morra a prosa de notário! Morra a chatice do verbete enciclopédico!

Falar da família não é fácil, porque nos descobre as entranhas, então calamos e falamos dos outros, os que acreditamos ter escolhido, e quando estes nos falham, perdoamos a família dos defeitos que elegemos odiar. Alguns amigos amamos incondicionalmente, até ver. Em casa sequer lembramos dessa premissa porque a família, essa que não escolhemos, nos descobre as entranhas.
Falar da família é difícil, até ao dia em que um de nós morre. Seja quem for que parta, damos conta que é nossa parte. Pouco importa se a mais sombria, porque descobertas as vísceras elas mostram-se iguais.

Agora que a neblina tomou conta da aldeia, conta. Conta como só tu sabes contar, porque esta é a tua história. Repete quantas vezes te for possível porque quero fotografar em mim a tua memória. 

Escuta mãe, foi assim que o Fernando escreveu sobre o vosso encontro:

Conheci Reisele, a judiazinha brasileira, em Bucareste, durante o Festival da Juventude de 1953. Meti conversa, simpatizámos um com o outro. Marcámos reencontro em Paris.
Foi ali que a paixão nos incendiou. Convidei-a a casar comigo em Lisboa. Hesitou, pediu a opinião de uma outra brasileira sua amiga, mas numa língua que me era estranha. Perguntei-lhe e disse-me que era idish, a língua dos judeus da Europa Oriental. E ainda que a palavra goi, que eu ouvira, significava não judeu. Parte da sua família emigrara da Polónia para o Brasil, antes da guerra. Os que ficaram, assassinados foram pelos nazis, duas dezenas entre os seis milhões. Holocausto que provocou a desconfiança dos sobreviventes contra gois desconhecidos.
Acabei por convencê-la: seguimos e casámos em Lisboa, apesar dos seus pais telefonarem exigindo que ela regressasse ao Brasil, porém solteira.
No casamento (apenas civil, é óbvio) estiveram os meus pais, os meus parentes e os meus amigos antifascistas.
Três meses depois, com a ajuda de um amigo meu que era comissário de bordo, iludimos a vigilância da PIDE e conseguimos embarcar para o Brasil.
Ao descermos no porto de Santos, toda a família da Reisele estava à nossa espera: pai, mãe, irmão, avós, tios e primos, talvez umas vinte pessoas. Um a um, a todos cumprimentei cortesmente. Porém frieza a enredar-nos.  Nisto, a avó materna (que teria uns 90 anos) declama qualquer coisa em idish. Peço e a Reisele traduz:
- Quando já se cai de um cavalo, que seja de raça...
Sou tomado por um impulso. Relincho e pespego um beijo na bochecha esquerda da matriarca. Volto a relinchar e lá vai outro beijo na bochecha direita. Quebra-se o gelo, largam-se todos a rir. Ainda bem! Este goi acaba de ser aceite pelo clã da Reisele.

Três meses de namoro e um casamento de quase 60 anos. O amor e a loucura do gesto que vocês aventuraram. E se não tivesse dado certo, mãe? Amar era a única opção, respondes a rir.

Tantas jangadas no horizonte. Em qual delas seguirás viagem? Vela branca que nos acompanha lembrando o nosso destino. Os nós desenhados nos dedos e a vontade de conter o mundo. De quem é o barco ancorado? Há tanto tempo para partir. Ainda não despi todas as peles.



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(exercício 2)

Dorme na rua acompanhado por um chapéu alto. Do lado direito a sinagoga, do esquerdo as gargalhadas. Os jovens estão felizes. O corpo do morto, desfigurado.

Assim começa a minha estória de família. Numa Varsóvia gelada e anti-semita, como conta a minha mãe: 
  • Numa sexta-feira, o meu avô foi à sinagoga fazer a sua reza e quando saiu foi apedrejado até à morte por um grupo de estudantes embriagados. 

O meu bisavô cometeu o pecado capital de ser judeu. Deixou viúva uma mulher com quatro filhos à mercê de si mesmos. Uma família religiosa. Não lhes valeu Deus. 

  • A minha  família é oriunda da Polónia, tanto da parte de pai quanto de mãe. Judeus pobres em busca de um lugar no mundo. O meu pai nasceu em Lodz e a minha mãe em Rikki. Ambos trabalharam em Varsóvia. Conheceram-se em São Paulo. Um casamento arranjado. Na chegada ao Brasil tiveram os seus nomes alterados. Schmil passou a ser Samuel e Faiga Bailla ganhou o nome de Fanny. 

Escuto a minha mãe e recordo que antes do 25 de Abril, a minha avó paterna, Zulmira batizou a empregada de Maria, porque ela tinha o mesmo nome da patroa. Só para evitar confusões, justificava a minha avó.

A memória reinventa a cronologia, repete o que foi tido como importante e por fim cria cúmplices. Assumo como minhas, as memórias que não vivi. Dos traumas pouco se fala e ainda assim eles estão lá, ainda que ocultos. Soube desta morte violenta, já passava dos meus cinquenta anos. Uma bofetada no escuro atingiu-me no externo. Diz o meu irmão que sempre soube e não é à toa que desde os seus seis anos tem pesadelos com o holocausto. 
De onde teria ele ouvido falar do horror se a família tudo fez para aliviar o peso da dor? 
O sonho de uma vida nova. Ter uma casa, trabalho e pagar os estudos dos filhos. Engenheiro, arquiteto, advogado ou médico, é a menor das expectativas do imigrante pobre que paga a faculdade do filho. 

A minha mãe vai se cansando. Está com 90 anos. Ficou viúva há já quase 6 anos. Casou-se apaixonada. No dia da partida do meu pai despediu-se dele com um beijo falado. Meu amor, disse ela e sentou-se ao piano. Bach, a Sinfonia da Cantata, e eles.

- Achas que estou velha? pergunta-me, olhando-se ao espelho. Respondo que não. Sei lá o que é isso. Não fosse a falta de paciência para com as discussões acaloradas, diria que não dei conta de termos envelhecido. Tu e eu, mãe. A verdade é que velhos são os outros. Mas nós? Não, acho que não. A necessidade de momentos solitários, silêncio e repouso não é velhice. Segundo os entendidos é sabedoria porque os jovens não têm tempo e nós, os maiores de idade, de uma forma contraditória, temos todo o tempo do mundo. 
Somos então o quê, mãe? Jovens de espírito, respondes a rir. Talvez tu, mais jovem do que eu que hoje procuras no passado o teu presente. 

Depois da pausa, regressas com um novo fôlego, Em cada intervalo, a possibilidade de largar e voltar a inspirar.

  • Quando eu nasci, chorava muito e o meu pai deu-me o nome de Rosa em homenagem a uma grande cantora lírica. Quando eu era criança, a minha mãe viu um piano em casa de uma cliente e perguntou-lhe se poderia me dar aulas. Foi assim que comecei a estudar. Mais tarde, quando houve dinheiro ganhei um piano e fui estudar no conservatório com o professor Ítalo Tabarim.

O teu piano viajou contigo de São Paulo para Fortaleza, mas na vinda para Portugal foi trocado por dinheiro porque a vida assim exigiu. E o teu avô? 
  • Não sei mais nada. Se o meu irmão fosse vivo saberia dizer mais do que eu.

O que mais poderia eu querer saber além de que a morte matada aconteceu numa sexta-feira?


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Domingo - 12 de Julho
Ao meu lado esquerdo Miguel mostrou-se inquieto. Estávamos numa boa mesa com vista para o mar. O peixe era excepcional, mas Miguel não parava de olhar para a mesa que ficava às minhas costas. Tinha de ter a certeza de que o incómodo de Miguel não estava relacionado comigo. Seria terrível provocar tamanho aborrecimento. 
Miguel adiantou-se:
  • O filhote fez cocó no sofá e ninguém limpa, nem avisam  o garçom...
Não resisti. Deixei a minha bolsa cair no chão. Saí da cadeira para a levantar e então vi um basset a comer à mesa, num restaurante com uma estrela Michelin. 
Pedi uma torta de maçã e Miguel, um creme brullé. A sobremesa e o café.

Terça-feira, 14 de Julho
A Manuela alugou um quarto no pátio onde eu moro. Abriu-me o portão de casa com um sorriso bem disposto. A Manuela sisuda agora é simpática. Convidou-me para comer sardinhas, ajudou-me a tirar a embalagem que protegia a geladeira nova. Guardou o isopor em cima do armário. Falou de São Tomé com a mesma paixão que eu. 
No nosso primeiro encontro perguntei que curso tinha feito. Respondeu-me que não era da minha conta. Tem uma cadela com pelo enrolado que, segundo ela, pensa. Conta-me como se traduzisse, o raciocínio da Bliss. Diria eu que por telepatia. 
A Manuela gosta de São Tomé e Nova Iorque. E eu, a contragosto, confesso que amo.
Cohabitar deve ser isso.

Quarta-feira, 15 de Julho I
O Luís telefonou-me agora de manhã:
  • Aconteceu-me uma desgraça. A Mariana deu positivo ao COVID...
O Luís é produtor. Fornece os nossos cabazes e vende na feirinha de Almoçageme. 
Estivemos ontem com a Mariana. O Raul com máscara e eu dentro do carro. Desinfetamos as mãos. Tanto cuidado temos tido em não sair…
Com quem já estivemos que seja assintomático e não soubemos se sim ou não. A insegurança toma conta do corpo. A minha alergia que era alergia, agora é desconfiança. O medo da sobrevivência. Como viver sem trabalhar?
Não, não vai ser nada, dizem os amigos e amigas. Confiamos porque a fé move milhões de ignorantes e nós acreditamos. 
Esperando tentando não olhar para o relógio e ver a bomba arrebentar.

Quarta-feira, 15 de Julho II
Não sejamos mais papistas que o papa. Vá observando os sintomas. Se for agora fazer o teste corre o risco de ser infectada. O tempo de incubação é de 7 a 14 dias. É assim que o médico arruma o assunto. 
Noto o alívio no corpo e de imediato o medo. E se eu relaxar e depois o corpo disser que não? Dita a cartilha que não se deve abandonar as amarras para não sermos apanhados desprevenidos. Foca-se então a atenção no que não existe, senão no medo que aconteça.
Quantos amores foram frustrados pela paúra que temos de amar?
Amanhã a família não vem. Faltas tu, de novo, pai. Está quase a fazer 6 anos que fizeste um manguito à vida. Não foste, deixaste-te ir. Nem consigo imaginar a tua tristeza face à pandemia. A geração dos teus netos sacrificada a não sei quantas crises. Que mundo é este que fomos construindo?
Há coisas boas, diz a Rita. Há sempre, respondo. Em vez de amansar, noto a irritação a crescer. Morreram 6 milhões. Podia ter sido pior.





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Dá-me um abraço, filha que cedo parto e de longe não te reconheço.  Vem, filha que outra coisa nåo me resta senão o nosso colo.
Escuto o teu lamento de longe, tão distantes que agora estamos uns dos outros. Sitiados no medo que dele nos  fez reféns. Vem filha, que cedo parto. E eu ausente desconheço que a vida é mais que dormir.
Estamos velhas, mãe. Tu com 90 e eu com 65. Assinaladas no quadro negro dos doentes de risco. Somos o número que pesa na contabilidade dos contagiados.
A tua estória, não me esqueço! O livro viaja dentro de mim. Ando às voltas, não saio do mesmo. Na vila que habito, é inverno quando no resto do país é verão.
Passo por tua casa na sexta-feira. A tardinha para fugir do calor. Sexta-feira, mãe. Fingimos um abraço.
Desde Março está o mundo confinado em si mesmo. Confundo o meu nome com distanciamento. A máscara que me cobre a face é a mesma que  descobre a miséria.
A crise, o lay-off, o desemprego e a bofetada final no anestesiado que teima em dormir.
Vou ter contigo na sexta-feira e levo o gravador. Falas da vida e do tempo em que a utopia te movia e eu nascia. No piano os teus dedos e a tua memória com se fosse agora minha.
Mal começo a escrever, paro. A tua estória de família nas minha mãos. Se ao menos eu pudesse parar! 
De domingo à quinta-feira, os cabazes. Conto os espinafres e as alfaces e desenho o universo como se entendesse alguma coisa de agricultura. As cenouras estão verdes, diz a cliente. E eu silencio o verbo porque fico a pensar qual será a cor da cenoura antes de ser madura. Entra a sexta-feira e não fiz nada além de cobrar os cabazes que distribuí.
Entre Portugal e Brasil deslizo no português. Tento com o traço o que falho na escrita. Nem sempre escrevo e desenho. Calo contigo, o arrependimento.
Quem sabe amanhã, recomeço

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