Filipa
O meu irmão pequeno desenhava bigodes.
Na capa da revista, na foto a preto e branco, na folha do jornal, no defunto do obituário, no reclame da paragem, na cara impávida do manequim, no vidro da montra, no bêbado adormecido. Recebeu louvores, um prémio distinto, pela realidade assim desfigurada, retocada a ridículo, melhoramento que assenta maravilhosamente até ao mais lúgubre e taciturno fenómeno.
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DINO
O meu irmão mais novo, usava mosca, monóculo e suíças, bebia Genebra ao almoço, jantava sopas de queijo, se entortava um olho e espreitava pela lente, via a mosca voar sobre os Alpes e aterrar no seu queixo. Diagnosticaram-lhe um estrabismo avançado, graças ao noticiário. Artístico e visionário, jurou usar um só globo, decretou o outro encerrado. Com uma pálpebra em greve eterna, a outra em trabalho esforçado, retocava a realidade, a personalizados matizes, lia o jornal ao contrário, fazia as tragédias felizes.
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As brechas surgem aos ataques do tempo mas ninguém parece reparar. Vou amarelecendo, ressecando, e à flor da pele vão acrescentando tatuagens deturpando o meu sentido. Pouco a pouco vou sendo outra. Os meus cabelos de rosas e agapantos encrespam e tornam-se esparsos. Porque não notam as folhas tornarem-se ferruginosas, os troncos cheios de líquenes, as árvores tristes, o meu grito de socorro? Insistem em fazer-me implantes tropicais, coisas cujos nomes nem sei pronunciar. Os meus anti-corpos armados até aos dentes não têm força para repelir as bagas azedas que um dia mancharão o meu solo. Matam-me a sede com água espumosa. Que cheiro é este? Litros e litros, com a melhor das intenções. Mais estéril a cada lua, sufocando neste calor. O vestido de betão aperta-se à volta da minha cintura. Está tão bonita, oiço.
Crianças a brincar às bonecas.
Ninho feito passarinho morto.
Vi-a nascer. Na força da minha juventude vi primeiros passos, guinchos de alegria, esbracejos e mergulhos, gargalhadas, soluços, as fúrias, as disputas de primos, casamentos esperançosos, cada novo neto, bochechas sorridentes e saudáveis à luz dourada gravada a super 8.
Acho que ela pressente o crime em marcha, vejo-o na passagem breve da sombra no seu cruel entusiamo infantil. Momentos em que baixa os braços. Entristece, perde o alento, mas nem sabe de quê. Pára criança, matas o que ainda te prende à vida. Está por um fio o elo, vais estrangular a memória. Este é o teu único colo. Não vão restar Donas Fernandas e Jujus e Senhor Teigas para o teu consolo. Em que ponto fixo pode assentar o universo? Vais apagar o teu passado. Morrerá comigo o teu lado bom, o lobo bom alimentado a bolinho quente, pombinhas da padaria, pasteis de nata embrulhados em papel vindos da cidade, cordões de pinhões do mercado. As camisas de noite às flores, mangas de balão e vestidos de folhos.
Vai sobrar o quê, rapariga, neste desvario de vaidade? Fútil propósito. Quando olhares para trás não me reconheces. Quem fica para cuidar de ti se não as minhas paredes rugosas e janelas a cair aos pedaços? As portas desconjuntadas, as formas de bolo e téperuéres e terrinas e utensílios inúteis peganhentos de pó, e os armários sempre altos demais, ou fundos demais.
Saúde vem de ser amado em pequenino. Aquele amar de segurar por baixo enquanto desvariam no mundo com o seu egoísmo. Vão e vêm num movimento elástico, órbitas elípticas, rodando absortos sobre si mesmos. Amor é um personagem que nunca se senta, nem dá pelo cansaço. Um chá de limão muito adoçado antes deitar. Come uma torrada, filha.
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Dobrei o cabo dos 40 e o eixo da terra deslocou-se imperceptivelmente. Neste lado de dentro tudo é mais lento. Suspenso diria. E como uma cosmogonia a projetar-se diante dos meus olhos, vislumbro as forças que mexem cordelinhos neste universo. Dissiparam-se as nuvens, toda a turbulência atmosférica, é, como se agora, aborrecida de passear no convés, tivesse dado por acaso com a sala das máquinas. Passo quase todas as minhas horas a descobrir as engrenagens assim postas a nu. Vou-me ora exasperando, ora ganhando estima às rodas dentadas, algumas encravadas, ao rugir da caldeira.
E na minha hélice, os cromossomas maternos e paternos debatem-se desde sempre, incompatíveis, como a substância e o reagente.
Acabo por preferir a tranquilizadora lógica e racionalidade do lado paterno, no topo solitário da sua montanha de capricórnio e olhando do alto com arrogância privilegiada e magnanimidade patriarcal. Talvez como tábua de salvação na luta titânica contra a desordem emocional das águas lamacentas de caranguejo da minha mãe.
Reclamei ser senhora absoluta do meu tempo. Desenhei, montei, e fundei meu próprio centro de yoga, que agora giro comodamente a dois passos de casa, equipado condignamente, irrepreensivelmente remodelado, nada menos que os outros. O meu animal social emplumou-se com este bónus extra de autoridade e status. A validação, com montra para a rua, do meu métier.
Vou-me resignando a um estilo low-profile, non challante, quê-bê diletante, acomodada a uma proverbial preguiça e falta de competência para o marketing pessoal, recusando-me jogar o jogo do mundo. Pelo menos em paz com o meu privilégio, sem complexos, descartando uma antiga culpa de classe, e sacudindo do capote migalhas de menosprezo por mim mesma, por ter falhado no projeto burguês da carreira admirável e descumprido o desígnio feminista, bandeira hasteada apenas há pouco mais que uma geração neste canto luso, da mulher financeiramente independente.
Nos escombros de 16 anos de casamento, a vida parecia um parto, um reencontro, qualquer coisa brotava tenra e jovial. Renascia um eu deixado lá atrás. Intenso e vibrante, inquieto, insaciável. Volátil e vagamente suicida. Mas fiz um mundo novo. Volver a los dieciesiete, como canta a Violeta Parra, é algo novo que se enreda como a hera no muro, brotando brotando, como o musgo na pedra. E o que brota inocente e fresco, cheio de viço e sedento de espaço, do seu espaço, do seu momento de sol e de chuva, um dia vê-se de fundas raízes, casca grossa, tronco inflexível. O rebento não sabe que germina da semente da trepadeira que estrangulará a floresta.
Às vezes ainda me vem uma náusea quando o meu corpo se lembra da longa caminhada no fio da navalha, na corda bamba, à beira do precipício, tão perigosamente. Sobram ocasionais e esparsos laivos de tristeza profunda pela fachada de paraíso perdida, um ressentimento amargo e inexplicável e sobretudo um apreço pela calmaria que me faz afogar um milhão de vezes qualquer rebeldia.
A fome de comer o mundo, de andar por entre as pessoas sossegou, quase desapareceu, mas às vezes ainda tenho esperança que esteja apenas atrasada no seu hibernar. Gosto dela, no fundo.
Agora que a trepadeira tomou a floresta, no meu avesso me encontro. Os sonhos felizes de cidades e espaços já tocam baixinho, em acordes dissonantes na música de fundo do disco, já nem sei se ainda os desejo. Na minha solidão de tempo distendido, o volume deste teatro interno vai aumentando, e já mal oiço o mundo lá fora.
Sento-me comigo própria sem auto-complacência e sem plano de fuga na perspetiva. Talvez mais como animal de companhia, naquela ambiguidade em que não se distingue quem domesticou quem. Resignada à convivência cúmplice do café tomado em silêncio, dos instantâneos que partilho comigo mesma dos fragmentos de beleza do quotidiano, serenidade sem segredos e artifícios de um casal que se suporta há muito.
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