Cassiana
Entre plantas e patos
Vivia entre mil e um patos num terreno tão grande que nossa pequeneza nunca enxergava o fim.
Era velha, de cabelo curto e branco, igual à paina que cobria o telhado da casinha desconjuntada, mais velha ainda que ela.
Toda semana, eu batia palmas diante do portãozinho enferrujado. Batia por bater porque ela só atendia mesmo quando a gente esgoelava:
- Dona Margarida! Dona Margarida! Tem alguém em casa?
Ela então vinha, apoiada numa bengala, num passo que demorava toda vida para percorrer o caminho curto da porta até o quintal dos fundos.
Acho que ela era assim, muito curva, para levar os olhos mais perto da terra. Dos canteiros de alface, agrião, rúcula, cebolinha e tantos outros temperos perfumados e desconhecidos.
Era assim que ganhava a vida. Por cinquenta centavos, entregava um maço de folhas ainda com grãozinhos de terra escapando das raízes. Uma fartura que enchia as barrigas do quarteirão de verdura fresca, barata e sem veneno.
Só uma coisa me intrigava. Por que ela, com a mão tão boa, não cultivava um cantinho que fosse de flor? Nenhuma roseira, nenhum arbusto de lavandas ou uma trepadeira de alamandas subindo o muro. Nenhum pontinho de cor naquela vastidão verde.
Um dia, tomei coragem e perguntei:
- Dona Margarida, porque a senhora, que tem nome de flor, nunca planta nenhuma aqui no quintal?
Dona Margarida terminou de cortar o último maço de alface, endireitou um pouco as costas endurecias e se virou pra mim com um sorrisinho no canto do olho.
- Venha ver uma coisa.
Eu a segui, entre plantas, patos e portas até dentro da casinha velha.
Dona Margarida levantou o tecido colorido de chita que separava a cozinha miúda da sala. Fez um gesto me mandando entrar
Eu quase não podia acreditar!
Era tanta cor, tanta luz e tanta flor que nem parecia de verdade. Orquídeas de muitos tons subiam as prateleiras, vasinhos de violeta adornavam as janelas, uma linda rosa vermelha pendia de um vaso fino sobre a mesa de madeira. No canto, sobre a toalhinha de crochê, um ramalhete de margaridas esperava, embrulhado ainda num papel meio amassado.
Dona Margarida tinha na mão um porta-retrato pequeno, de moldura dourada.
- Eu sempre fui do trabalho – disse ela – Sempre com as mãos na terra para sustentar os irmãos, depois os filhos, colocar comida na mesa.
Olhei para a fotografia. Um menino sorria, de mãos dadas com uma mulher mais velha. Num relance, vi ali Dona Margarida, ainda sem o cabelo de paina e as costas curvadas de chão.
- Ele nunca pôde com a enxada. Gostava das coisas limpas, bonitas. Acho que nasceu poeta – disse, alisando com dedos duros aquele rosto suave de criança.
- Meu menino estudou e se foi. Mas quando vem me ver, traz sempre consigo um presente. São flores para o jardim da Margarida, ele diz – contou ela, o gesto aberto para a maravilha daquela salinha singela.
Saí dali meio zonza, desnorteada.
Nunca mais vi aquela mulher do mesmo jeito.
Para todo mundo, ela era a mulher velha que criava patos e cuidava da horta. Para mim, Dona Margarida tinha nome e jeito de fada do bosque. Só eu sabia que, naquele pedaço de terra, ela plantava comida, mas colhia flores.
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Caminhava como se o chão fosse feito da matéria dos sonhos. O corpo se movendo com uma suavidade estanha, numa inteireza que desconcertava. Só agora se dava conta de que vinha andando por aí aos pedaços. Um ser feito ora de ombros pesados e cabeca enorme, ora de grandes pés doloridos, ora de quadris cuidadosamente malemolentes sobre salto alto. Nunca uma forma fluida e quase invisível como neste exato instante.
Olhou em volta com uma atenção curiosa. Por costume, viu primeiro as costas curvadas, as pernas endurecidas, o desacordo do passo. Num e noutro, a beleza de músculos bem tratados, de um angulo do rosto jovem, de fios privilegiados. Mas não conseguia ver o todo. Os vultos se moviam pela calçada aos fragmentos, como se peles e roupas costurassem peças, parafusos, roldanas enferrujadas. Como ela até um minuto atrás.
Até sair do caminho.
Teria sido sempre assim? Em que momento teriam todos perdido a harmonia inconsciente para aquela aquela desforma de Frankinstein?
Ela mesma não podia dizer.
Mal se lembrava de como tudo havia começado.
Ousou mais um passo. Depois outro. E um rasgo de sonho de repente atravessou sua memória. Os pés. Sim, eles foram os primeiros.
Os pés descalços, ásperos de terra, mato, espinho. Maleáveis em torno dos galhos lisos da goiabeira. Firmes sobre a pinguela, na longa travessia do riacho.
Os pés. Lembrava-se agora deles. E do mundo embaixo deles.
Largo, solto, fluido.
As estações se sucedendo em sensações. As pedras quentes, no verão, o gelo estalando após a geada, a umidade brotando dos musgos e flores miúdas na primavera.
Aquele pés.
Por onde eles andam?
Com cuidado, coloca a planta na terra. Sente o profundo do barro, o frescor penetrando os dedos, subindo pelas pernas,pelas coxas. Estremece.
Sabe que não deveria estar ali.
Logo as engrenagens voltarão a funcionar e tudo será como era antes. Os olhos vigilantes, a máquina humana em movimento, desconjuntada, seca, dura e incrivelmente eficiente.
Tenta respirar. Mesmo neste ar rarefeito. Só um pouco mais. Talvez consiga levar o oxigênio até lá embaixo. Voltar a sentir o calor...
Não, ainda não é hora. O que fizeram é grave demais, terrível demais. Não quer correr o risco de pôr tudo a perder.
Não agora que que se sente tão fluida, tão inconsequente.
Se concentra de novo nos pés. Se distancia um pouco mais.
E eles subitamente a lembram de outros passos.
Os que a levavam pelo salão de baile. Leve como a pluma branca da paineira salpicando um antigo vale. Como o vento perfumado da manhãs de primavera.
Quem era ela? Quem era ele?
Ainda pode sentir o ritmo da música conduzindo seus corpos unidos, quentes, embriagados. O suor escorrendo na nuca, as mãos húmidas, o mundo girando em sombras.
A música.
O vento.
Como agora.
Ela está girando também, os braços abertos, a boca aberta, sôfrega, amolecida como o barro.
Só mais um pouco. Está quase lá.
Não, ainda não.
Eles estão chegando. Consegue ouvir o ranger dos passos.
Ela não pode mais. Perde o equilíbrio. Cai. A dor nascendo nas costelas, nos tornozelos, nos quadris.
Ainda assim, se levanta. Com a dor, talvez eles não percebam.
Talvez a deixem ir sem interrogatórios.
Talvez.
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Sei não o que estou sendo. Talvez tenha desistido de perguntar. Ou desinteressado de descobrir.
Quando tenho forças suficientes, me concentro em juntar o máximo de energia num montinho quente. E soprar. Porque a chama está lá, eu sei. Depois de todas as químios dos últimos quatro anos queimarem meu oxigênio. Depois dos milagres. Mesmo ainda. Na verdade, me concentro neles. Nos milagres. Todo dia um risco, um lampejo, uma contemplação.
Todo dia um dia.
O fogo. Está aqui agora, enquanto escrevo. À espreita. Protegido no fundo movediço de um corpo de sobrevivente. Preso na brasa esculpida na dor, no calor da floresta devastada, entre a morte e a vida. À espreita.
Não se engane. Eu só preciso de um pouco de ar. Um leve respiro no fundo de um suspiro aberto.
Para arder.
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