Diogo
Prólogo de Sal, uma dança de Iná Vieira
Diogo Locci
Sal começa no escuro. Após meio minuto, o espaço é tomado pelo canto de Joana – ela está na cabine de som e não irá ao palco. As caixas amplificadoras dispostas ao longo do teatro vão espalhar sua voz de fileira em fileira.
Neste momento, a emissão do canto é grave e breve. Joana interrompe esse som para modular um disparo agudo, inspirado pelo canto de um sanhaçu-cinzento. Repete a sequência de sons à exaustão, suspendendo-a no mesmo segundo em que um feixe de luz acerta a escultura de gelo no centro do palco, revelando ao público o único elemento cênico que compõe o cenário.
A pedra começa a ser irrigada por água morna através de mangueiras instaladas em seu interior. Era matematicamente calculado que a escultura derretesse em exatos 70 minutos. Ao final do espetáculo, as mangueiras estarão no chão, ainda invisíveis aos olhos do público, e a aguaceira não estará apenas encharcando o palco, mas também escorrendo até a altura das três primeiras fileiras.
Ainda no silêncio, enquanto só é permitido ao público a luz que vislumbra um espaço reduzido do palco, entram em cena três bailarinas. Elas são vistas em silhuetas e a velocidade dos braços produz um som que torna possível imaginar a dança, ainda que não se possa vê-la.
Incluindo Iná – que também é coreógrafa, cenógrafa e intérprete de Sal, oito bailarinas entram na cena. Luzes branco-azuladas escorrem lentamente do proscênio até o centro do palco. Ao encontro dos onze corpos, ela finalmente se espalha. Quando revelam-se todas bailarinas, Joana volta a cantar, agora acompanhada pelo tambor metalizado de uma percussionista que entra no palco com o corpo encharcado. As onze intérpretes dançam diferentes movimentos e velocidades.
A luz se torna âmbar e a voz de Joana vira um sussurro em melisma. A percussionista se move até a escultura enquanto a água escorre da roupa e dos cabelos. Quando muda o toque do tambor, as bailarinas equalizam o movimento - agarram os cabelos e os suspendem acima da altura da cabeça, trocando a posição das mãos no ritmo da percussão.
Uma das bailarinas – a primeira que interrompe o movimento, caminha até a escultura. De costas para o público, lança as tranças contra o gelo. A velocidade do seu movimento e o ritmo do tambor aceleram simultaneamente. A voz de Joana torna-se gutural. As luzes se apagam, anunciando o fim do prólogo.
Este momento de Sal sempre foi de silêncio e escuro. Nesta semana, a última da temporada, a chuva tem se intensificado como nunca no país desde o início das medições meteorológicas. Ao fenômeno foi dado o nome popular de “chuva do meio”, pois ela chegava com tamanha violência que seu começo não se parecia um começo, mas sim o andamento de um temporal furioso.
Iná odiou que a chuva fosse a distração para o início silencioso previsto para Sal. Era injusto, já que há anos havia eleito a água como a matéria que tonifica sua dança. Da coxia, alivia-se por lembrar que só entra novamente em cena depois de nove minutos. A percussionista ainda pinga. A bailarina que lançou a trança contra o gelo limpa o suor que escorre da testa. Iná escuta a chuva que parece derrubar os postes e se obriga a lembrar que nenhuma água jamais estará inteiramente ao seu dispor.
Cumulonimbus – as nuvens dos temporais
Diogo Locci
“Eleno, eu quero ter um filho”, insistiu Sérgio após um banho longo, tomado enquanto esperava pelo marido. Eleno disse que não. Repetiu “é impossível” tantas vezes que a afirmação parecia servir apenas a ele. “Era um acordo, você me prometeu”, acusou Sérgio. Ofegante, Eleno virou-se para a janela e encarou mais da chamada bruma-terrestre.
Havia semanas que a insistência das nuvens tornou possível distinguir a matiz das neblinas, entender seus pesos e reações a cada tipo de luz. Os olhos de Eleno arderam ao firmar em um ponto atingido por um raio. Os veios se espalharam às beiras e ele enxergou, num lapso, corpos de criança boiarem neste mar na terra.
Voltou-se para Sérgio. O amor profundo pelo homem que tomava um copo de água enquanto crianças mortas flutuavam em nuvens não era suficiente. “Sérgio, eu quero o divórcio”.
***
Eleno caminha e não há mais placas com nomes de ruas, tampouco fachadas, vitrines, manequins e cadeiras de escritórios – tudo está mastigado por uma mesma massa opaca de ar. As avenidas se tornam labirintos e as pessoas vivas nadam, correm ou gritam.
O gorro encharcado de Eleno pesa na cabeça e tapa as orelhas. Os olhos treinados para ver brumas estão cansados. As pessoas correm ao seu redor e o olham com raiva. Por que esse homem anda como se a própria rua não exigisse pressa? Como se as calçadas não estivessem repletas de um musgo traiçoeiro, de uma natureza inflada pela vontade de matar.
No caminho, se distrai com a resignação de um gato velho que respira mal. Acaricia sua cabeça e o animal não reage. Em seguida, suspende o gato e o aninha no antebraço. O bicho acomoda o queixo no punho de Eleno e finalmente fecha os olhos. Sabe que o gato não está morto porque o coração bate, ainda que em declínio. Decide chamá-lo de Fim. Carrega-o num passo cada vez mais lento, cumprindo com a caminhada a pulsação do coração felino.
Entram em uma nova bruma-terrestre após Eleno estender um de seus pés para se certificar de que essa não está repleta de água. Junto de Fim, anda guiando-se pelos tons gradativos de cinza e azul claro. Ouve um choro de criança e a voz do homem que tenta acalmá-la. O som é familiar e o faz tirar o gorro para ouvir melhor. Atenta-se ao semblante e encolhe os olhos como nas noites antigas em que um feixe de luz no escuro revelava a nuca de Sérgio.
O semblante era do seu ex-marido. Aperta o gato contra o peito. A criança chora cada vez mais baixo. O afago de Sérgio se torna um baixo assovio. Eleno chama por Sérgio, mas a voz se perde numa ventania. O ex-marido chega ao fim da bruma-terrestre com o filho no colo. Vira à esquerda em uma rua sem nome.
O coração de Fim ainda bate.
Mais forte agora, acolhido pelo peito de Eleno.
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Stratocumulus - As nuvens das turbulências
Diogo Locci (Joana, de um romance em construção)
One breath away
From Mother Oceania
Your nimble feet
Make prints in my sands
Björk
Já estão mortos os cantores. Caídos os homens de garganta pequena, os que acreditavam ter vozes mais volumosas que as nuvens, que achavam viver sob um céu de titânio que protegia a Terra dos cristais de gelo que o solo encomendou, mas os cristais vieram – estão sendo entregues pelas nuvens. Já são mortas as vozes e queimados os microfones. Estão engasgados os que quiseram cantar. Falta sopro, não há vento para lembrar ser possível uma respiração profunda.
Nossas casas, do apartamento de 57 andares ao bunker de quem pode tê-lo, estão aguados de nuvens, de um frio em algodão que vem pelas beiras; que é blocado, imenso. A cor não pode ser dita, mas tem um nome-névoa.
Eu e a casa inundada de móveis flutuamos no aguaceiro. A água nos conta muitas coisas – ela apaga o corpo do sujeito que afoga, mas quando está contida no copo, só aumenta o tamanho dos dedos camuflados atrás do vidro. Queria ver mais uma vez minhas digitais sem estar de mãos enrugadas pela umidade.
Ouso cantar, porque não são mortas todas as cantoras.
No meio da branquidão da nuvem, dentro de casa, grito e engasgo. Grito e afogo.
Tusso e dói. Grito e dói. Água no peito, garganta quente, narinas aos caldos.
Nado no rabo de névoa que sobrou de uma nuvem-mãe. Encontro saída na beira da janela. Olho para fora e não vejo a rua. Pra fora, apenas outra nuvem indiferente num voo lento e assertivo de aguar os homens.
É para ela que improviso a próxima música.
Com voz de peito encharcado, perturbo o ar com os sons mais tristes que posso atirar. A voz sai melada como água viva em queda. Canto um grito, berro seco, contorço os melismas e faço a voz ir rouca para encontrar a nuvem.
Ela continua até mim, desinteressada. Galope quieto, turvo. Assopro um mapa com a voz – queria poder traçar uma nova direção invisível, uma possibilidade. Uma possibilidade que fosse.
Ninguém aqui quer morrer.
Quando ela chega perto, o vento vem junto. Me preparo para que ela desorganize a casa. Não me movo. Quero recebê-la, dedicar-lhe a canção até o fim.
Quando o bico da nuvem chega à minha janela, se divide entre o meu apartamento e o do vizinho. Enquanto se corta ao meio, sua água escorre pela parede de fora do prédio e eu vejo os rios que caem invadirem outras casas. A nuvem encontra minha boca, mas não a fecha. Entendo como modular a voz na água.
Aprendo como podem ser os sons, os cuspes, as respirações, os sopros e os silêncios. Está escuro. Sua matéria me dá campo para uma voz nova. Continuo o canto e empurro o corpo pra cima. Nado dentro da nuvem. Os braços e as pernas criam juntos a tessitura de uma voz nova.
Ainda não estamos mortos.
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Dos dias entre plantas e nuvens
Diogo Locci
Olhar para as paredes rachadas, o piso que se descola do chão e os colares descascados pelo sol. Reunir os próprios pedaços espalhados pela casa e depois perceber que é melhor mantê-los um em cada canto para ampliar as possibilidades de encontro.
É um pequeno apartamento antigo, desses que nos contam que é pra uma fase da vida, como se a tessitura do tempo se preocupasse mesmo com essa conta - com os eclipses que não posso ver, com os meses rasgados em pedaços de papel ou datas de mentira a nos forçar lembranças, homenagens e pesares.
Pela primeira vez em muitos anos rápidos, desses de tentar coletar mais sins do que nãos, consigo pensar nos meus pés e sabê-los ali. O mesmo com as mãos, a barriga, a coxa e as costas. Existe mesmo um corpo, um espaço de tempo que não é meu, porque é só um acontecimento.
Assisto ‘O Corpo’, do Grupo Corpo, e finalmente consigo entender a razão do título homônimo para a obra. Entre tantas danças, é essa que foi nomeada de Corpo. Os gestos nos contam sobre presença e possibilidade - um duelo com lâminas finas que são a descoberta e a curiosidade. O que pode um dedo parado quando apenas sabemos que há um dedo? Como se sentem os pelos do braço sem precisar puxá-los?
Escrevo um livro sobre nuvens que se aproximam em silêncio. Nelas não há textura de algodão - são rios densos e escuros ou cristais de gelo quilométricos.
Encho a casa de plantas e brinco que só vou parar depois que precisar esbarrar nelas para me mover. Esbarrar na planta passa a ser esbarrar em mim. Quando foi que achamos que não somos a asa de uma ave vermelha?
As árvores ao lado de casa, duas ou três, foram cortadas para não atrapalhar os fios da rede elétrica – essas que geram uma conexão assertiva, explicável. Portanto, necessária.
Ouço o disco mais recente de Gilberto Gil e choro quando ele nos conta sobre o que sempre devia ter sido mais necessário: “Ouço todos os corações batendo / Todos os corações do mundo batendo”. Lágrima, coriza e suor. Tantas águas fazem lembrar que sou, da lágrima ao espirro vermelho de sangue, a matéria das nuvens.
Uma coisa se condensa em outra e Elza Soares canta em Banho que acorda maré e dorme cachoeira. “Misturo sólidos com os meus líquidos / Dissolvo pranto com a minha baba / Enxáguo a nascente / Lavo a porra toda / Pra maresia combinar com o meu rio, viu?”. E não esbarro mais nas plantas, porque somos juntos. E quando olho pras nuvens, enxergo caligrafia na sua gramática. Ser, fatalmente, um pedaço de tempo.
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