Eduarda
O Vale das Igrejas Brancas (reescrita)
Primeiro calaram-se os sinos das doze igrejas dispersas pelo vale. Enfraquecidas pela ausência da música que as mantinha de pé, esboroaram-se as suas vidraças, ferros, madeiras, portas, paredes.
Então vieram os pássaros e os voos e as poeiras e as asas e os anjos, tudo num alvoroço tal que nem os tectos resistiram. E o vento rodopiava tão forte que subiram no ar pequenas penas brancas.
Por fim as doze igrejas ruíram, todas na mesma noite.
Um velho vindo da montanha encontrou, em lugar de uma delas, um montão de destroços. Com a ajuda do cajado abriu caminho entre pedaços de vidro que brilhavam no chão e sentou-se num pedregulho a olhar o céu.
Foi sepultado ali mesmo, três dias depois.
_______________________________________________________
DINO (versão I)
Cabelo grisalho figura desalinhada
a tez tingida pelo sol do canavial
o bigode deixou-o um dia no salão,
já não dança o tango o meu irmão.
Agora é junto ao rio a sua nova morada
no meio dos patos que nadam entre as canas.
Quando me visita na capital
traz-me a oferta habitual:
uma velha cesta deformada
de peixe e alface farta.
Mesmo que mais de um ano tenha passado,
num fraterno ritual
pouso na sua a minha mão
e é tudo quanto basta.
DINO (versão II)
Já não dança o tango o meu irmão
o bigode deixou-o um dia no salão.
agora vive com os patos no canavial.
Quando me visita na capital
mais parece um bicho da alface assustado.
Mesmo que mais de um ano tenha passado
pouso na sua a minha mão
e é tudo quanto basta.
-------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Tentação (a partir de)
Uma onda de calor toma conta da cidade, o bairro despiu-se de gente. Apenas um homem na paragem aguarda o autocarro que tarda em chegar. Do outro lado da rua, uma menina sentada entre o segundo e o terceiro degrau de sua casa. Parece imóvel como uma menina numa pintura.
Atrás, as persianas das janelas semifechadas. O pai está sentado na pequena sala desarrumada. A televisão ligada, sem som.
Duma das paredes desbotadas sobressai uma fotografia ampliada, colorida, daquelas tiradas aos noivos no dia do casamento. Ele todo elegante no seu smoking preto, visivelmente jovem e feliz. Ela, linda! Os cachos ruivos dos cabelos, quase tão ruivos como os da menina, pendem da grinalda e roçam ao de leve no vestido de noiva, tão branco como a madrugada de amor que os esperava.
Dez anos passados, ali estava ele, uma sombra de então: cabelo desalinhado, ombros curvados, estômago saliente. E o olhar irremediavelmente perdido para lá dos tempos, de todos os tempos.
Nessa tarde à hora habitual e apesar do calor sufocante, uma senhora de meia-idade alta e corpulenta, abre a porta de casa de trela na mão e chama o cachorro, um basset de pelo ondulado, longo, e encarnado.
- Vamos Tobias!
Ele, dócil, estica o pescoço curto.
Talvez por um daqueles raros acasos que às vezes fazem uma vida virar do avesso, a dona resolve caminhar para o lado oposto ao que seguia sempre.
O cachorro quase se arrasta rente ao chão abrasador. Depois pára, fareja uma parede e levanta uma das patitas traseiras. A dona espera, paciente.
- Pronto Tobias, já fizeste. Vamos seu preguiçoso, pelo menos até ali à esquina.
E lá continuam rua fora, ela à frente, ele atrás, dois metros de fio a uni-los.
Nada se passa, para além da passagem das horas. A menina continua sentada nos degraus de casa. O corpito demasiado frágil para suportar o peso da sua cabeleira, tão intensamente ruiva como a mancha que a mãe exibe na fotografia. Maldição!
Nisto, a menina avista uma senhora de meia-idade alta e corpulenta, que acaba de dobrar a esquina ao fundo da rua. Dois metros de trela depois, surge o cachorro, um basset de pelo ondulado, longo, e encarnado. De repente desata a correr, quase arrastando a dona, até alcançar a menina. Os seus olhos negros e descaídos encontram os da menina que se abrem, enormes de espanto. Pousa as patitas da frente no colo dela. Tateiam-se mutuamente e ela entrega-se-lhe sem resistência. Então envolvem-se num abraço demorado, como se desde sempre se tivesses esperado um ao outro, os seus pelos encarnados misturam-se como um enorme novelo de lã da cor do fogo.
E por um momento sentem-se os dois livres, únicos e iguais.
Mais atrás a dona observa a menina desconfiada, nunca vira um ser humano com a cor do cabelo igual à cor do pelo do seu Tobias: menina bicho? Cão gente?
Um puxão na trela, mais outro, mas o cachorro não arreda.
Firme, a dona chama:
- Tobias! Tobias! Vamos!
Por fim obedece à dona e segue-a, fiel, quase a rastejar rente ao chão abrasador. E a menina fica a olhá-lo até ser só um pontinho encarnado lá ao longe…
- É melhor vires para dentro! – chama o pai.
A menina entra em casa e senta-se junto dele, em silêncio. Olha pela milésima vez a fotografia na parede, os olhos fixos na cabeleira da mãe, quase tão intensamente ruiva como a sua.
S
Saboreio o S: ésse... ésse...
S de sal de sol de solo
Semente e substância
S de sul seara secura socalco
S de sossego sonolência.
Sussurro. Suspiro. Sopro. Sufoco.
S de sangrar de somar e subtrair.
S de serpente e sobreiro. S de Sofia
Saturno satélite soturno. S de sabedoria.
S de sombra e segmento.
Sardenha sardinha sustento.
S de Sahara Sarajevo salut e sarava!
S de soletrar substantivo singular
S de signo sina sinal sugestão
Safira sereia sortilégio.
S de sotavento. S de sultão.
S de seio seixo seiva suculento
Seguir sumir sobrevoar. Sedento.
S de sopa de sobra de soba.
Setembro sucata sótão
Saudade soluço solução
S de suspenso de senil. S de soda.
S de sofá sedativo sedimento.
S de só de suave e sonoro
S de si de sax de sexo. Sim e silêncio.
S de santo e safado sacramento
Sola e sapato suado
S de sexta e sábado. Subsistência.
S de surto e sentença
Susto e sequência
Seis sessenta e seis seiscentos e sessenta e seis...
S sem sentido.
------------------------------------------------------------------------------------------------
(exercício 2)
A Escada
Um, dois, dezasseis, dezoito, vinte e sete, trinta e seis, quarenta e dois, quarenta e nove. Quarenta e nove! Conheço de cor as deformações dos degraus abaulados pelo peso do tempo e o lugar exato de um ou outro nó mais escuro da madeira envernizada da escada antiga. Disposta por três lances entre cada andar, forma no meio um amplo vão quadrangular encimado por uma claraboia envidraçada que filtra suavemente os raios de sol num sem número de tonalidades. Em dias de inverno, a chuva embate ruidosamente e a luz natural empalidece.
A escada do prédio é como uma estrada comum onde se cruzam aqueles cujas vidas, paredes meias, em mais nada se tocam. Bom dia! Boa tarde, como está? E cada um segue, alheio, em direção ao seu casulo, um emaranhado frágil de solidões e partilhas.
Tal como o tronco da árvore de que é feita, a escada constitui a estrutura central do edifício. Na sua verticalidade serpenteante ela testemunha, silenciosa, a passagem dos tempos: os moradores vão e vêm, umas vidas chegam, outras partem. Mas o prédio, centenário, sobrevive.
Intimidade duradoura: há cerca de vinte anos que subo e desço a escada. Quarenta e nove degraus! Quando na subida as pernas já pesam e a respiração se torna ofegante, paro a meio e por momentos imagino aqueles que a terão pisado antes de mim. Como eram os sapatos que calçavam? O que carregavam nas mãos? Ter-se-à beijado ali um casal de namorados?
Continuo a subir. Para lá de uma porta o choro de um bebé, mais acima Bob Marley canta Redemption Song. No ar um cheiro convidativo a carne no forno, hora de jantar. Entro em casa. Amanhã irei descer a escada. Mais uma vez.
---
A Mão
Está quente. Não falo do tempo, mas da mão, a esquerda. Grande, dedos longos, os nós largos, projecta-se do antebraço afirmativa, como se dissesse: aqui estou eu, nua, despida de anéis, vernizes, enfeites. A pele castanha rosada evolve a parte de fora da mão salpicada aqui e ali por veias azuladas e salientes, ora paralelas ora cruzadas, como que indecisas sobre o caminho a seguir. Reparo que uma delas muda de direção no preciso lugar onde encontra um sinal castanho escuro na pele e duas outras intercepam-se sob um outro.
Volto a mão aberta ao contrário e surge, mais clara, a palma, onde as veias salientes deram lugar a linhas. Semifecho a mão como se segurasse uma concha e elas tornam-se mais definidas. Linha da vida, do amor, do dinheiro, diria o quiromante. Em lugar disso eu vejo na palma da mão um mapa do tamanho da vida, em que as linhas são mares, e são estradas, e são caminhos e e eu fico para ali a olhar, à procura de mim própria.
Agora ergo a mão, rodo-a como um girassol, junto e afasto os dedos num sem número de movimentos e vislumbro a forma de uma ave a querer bater asa, partir deste corpo carcereiro. Mas permanece, íntima, com toda a sua força e fragilidade. Mão que toca, afaga, cria. E que derruba, que agride, que mata.
---
Este nasceu ao contrário. E nunca mais se endireitou.
“Este nasceu ao contrário”, comentava minha mãe referindo-se ao facto de, durante o parto, eu ter saído de dentro dela literalmente de pés e não de cabeça. “E nunca mais se endireitou”, concluía.
Era uma frase que eu ouvia vezes sem conta. No primeiro dia de escola, foi com estas palavras que me entregou à professora, antes mesmo de proferir o meu nome. Os outros meninos da sala observaram-me de alto a baixo, num misto de curiosidade e desconfiança.
Embora eu não entendesse o significado daquelas palavras, elas causavam em mim um certo mal-estar. Uma vez estava eu a jogar à bola em frente de casa com os miúdos da minha rua e pontapeei forte. A bola embateu no vidro de uma janela estilhaçando-se num ápice. A minha mãe saiu de dentro de casa dirigindo-se a mim, e, aos gritos, proferiu a frase maldita. Os miúdos correram rua fora, não sei se por medo dela, ou de mim... afinal eu nascera ao contrário e nunca mais me endireitei.
Certas noites deitado na cama, ficava a matutar naquelas palavras: “Este nasceu ao contrário e nunca mais se endireitou”. Então o sono tardava em chegar e trazia com ele um pesadelo: eu acordava todo torto, marreco mesmo. Pela manhã, mal dormido, arrastava-me para a escola e na sala de aula esforçava-me por não adormecer. Faltava-me energia para correr atrás de uma bola e os outros meninos foram deixando de me chamar para jogar com eles.
Do meu pai resta-me apenas uma imagem fugidia. Deixou-me, a mim e à minha mãe, num fim de tarde de verão, faz muito tempo. Partiu com uma turista francesa em férias na nossa vila. Conta-se que ela lhe propôs trocar o seu Ferrari encarnado pelo burro do meu pai. Acabaram indo embora juntos; Jeremias, o burro, ficou.
A comprovar o episódio existe uma aguarela pintada por um artista cá da terra: a francesa montada no asno e o meu pai ao volante do automóvel. Consta que pouco tempo depois foi a vez de a francesinha o abandonar. Sozinho, sem ela e sem o Ferrari talvez um dia volte para recuperar o seu velho Jeremias.
(texto em construção)
Eduarda Manso
---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Água
Está tudo azul. Azul claro, indígo, quase negro. Água. Um oceano. O corpo como um pedaço de madeira, naufrago. Num vai vem que não leva a lado nenhum. Apenas o ritmo das marés, o balanço das ondas a marcar a passagem do tempo.
O corpo dói, procuro despir a pele que o envolve. Em vão, de tal modo o sal a encrespou.
O sol a pique. Agora lampejos prateados tocam a superfície da água. E lembro-me das agulhas, das seringas, dos soros, dos hospitais. Então vem a tempestade de novo. Não que o azul escureça e as águas se revolvam. Não é isso. Sou eu. Sou eu. É o corpo, as entranhas a expandir, os fluidos a transbordar.
Depois vem a calmia. Uma certa paz, até. Por momentos deixo de ser o pedaço de madeira e volto ao corpo de menina, de mulher. A água é agora um leito de algodão doce. Ou será uma núvem? Fecho os olhos e deixo-me ir. Respiro então a brisa matinal das praias de infância. Os meus pézinhos na água e a mão grande e ossuda do pai, na minha. Tão longuínquo esse porto de abrigo...
De novo a noite. Continuo à deriva. Costumava sonhar que caía a pique do alto de uma falésia para o mar. Pesadelo. A água, sempre a água. O meu corpo é água, onde me afogo. Não respiro. Ao longe um navio carregado de gente, de vida. Da chaminé azul e branca eleva-se fumo em espiral. Como o fumo das chamas ondulantes sobre a fogueira da praia, em noites de amor. Por momentos, aqui e ali, também o azul se tinge de laranja, verde, vermelho. Labaredas. Sinto calor. Será o sangue a ferver? O corpo vulcão?
Não vejo mais o navio, foi-se em direcção ao sul. Sempre gostei do sul do meu país. As planícies a perder de vista, as casas de uma brancura que contrasta com a pele escura e curtida pelo sol daqueles que nelas vivem. Planícies, como este oceano imenso onde viajo.
Procuro em vão os pontos cardeais. Onde está a minha bússola? Onde está a minha bússola?
Comentários
Postar um comentário