Marcelle
Não sei seu sobrenome original. Seu primeiro nome é Rambo e ele nasceu na Flórida, e tem duas irmãs mais velhas, e foi separado de sua família de origem quanto tinha seis anos. Quando foi adotado, passou a se chamar Rambo-Lucas. Rambo-Lucas Kostabi.
Não sei muito sobre seus pais biológicos. Pelos traços físicos dele – Rambo tem a pele clara, o nariz largo e o cabelo crespo que usou, por quase duas décadas, em dreads imensas – imagino que um deles seja negro e o outro branco, ou que um seja negro e o outro hispânico. Acho que eram, ou são, alcoólatras. Gosto de pensar que eles tinham senso de humor e uma desconsideração saudável por convenções: entre tantas possibilidades de nomes para o único filho homem deles, eles escolheram Rambo, afinal.
Também não sei quase nada sobre seus pais adotivos. Sei que a mãe perdeu um filho biológico e por isso o adotou, e também vários outros meninos e meninas depois dele. Não sei quantas ao todo, mas foi um número louco, tipo dez, doze, dezessete crianças. Ela não conseguia nem parar de adotar, nem cuidar de tantos filhos, e Rambo continuou meio abandonado na casa que virou uma espécie de abrigo.
Não sei como foi sua adolescência. Sei que, quando chegou a hora, ele entrou para uma universidade qualquer e cursou alguma coisa genérica na área de Humanas. Quando surgiu uma oportunidade de fazer um intercâmbio no Chile, ele foi. Ao chegar lá, o curso que ele ia fazer foi cancelado, e ele ficou à toa, um estudante em limbo, abandonado de novo.
Depois disso, ele não voltou para os Estados Unidos. Passou a vagar pelo mundo, dando aulas de inglês e se hospedando em pensões e albergues e em casas de desconhecidos.
Deve ter sido nessa época que ele virou místico e adepto de teorias de conspiração. Ou talvez isso tenha começado antes, não sei.
Quando o encontrei em Córdoba, ele estava morando no quarto coletivo de um albergue em que havia barulho até tarde da noite, dando aulas de inglês online, e se esforçando para pagar as mensalidades de uma formação online em cura espiritual.
O curso era ministrado por um homem patético de costeletas que depois eu encontreii na internet. O site dele era muito pomposo, cheio de logos para diferentes cursos e serviços atrelados à “consciência multidimensional” Adronis, um extraterrestre super evoluído que aparentemente tinha decidido trabalhar em prol da humanidade através de um homem gordinho e calvo do oeste do Canadá.
Como seu aluno, Rambo estava habilitado a aplicar um número restrito de intervenções espirituais, e foi assim que ele detectou a presença de três entidades em meu corpo e pediu para que elas saíssem.
Isso foi há seis meses.
Rambo continua em Córdoba e mora numa república de brasileiros. De lá, ele compartilha matérias e memes que mostram como nós todos estamos sendo enganados.
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Caverna
Você não tem nada contra mim mas me caça e atira em mim. Você me adora e me venera, e compõe músicas e cria histórias sobre mim. Você tem um respeito profundo por aquilo que eu represento. Eu sou coragem, força e perseverança. O homem solitário. A mãe zelosa.
Eu subo a montanha e entro na minha caverna e durante muito tempo você não me vê. Aqui dentro eu esqueço de você e de tudo o que não sou eu.
A caverna sou eu. Nela me sinto protegida e compreendida e completa. Eu ouço discos inteiros na minha caverna, me faço massagens, piro em qualquer coisa. Tenho ideias que que surgem e se conectam inocentemente.
Sou ineficiente: faço, devagar, apenas o que é essencial para me manter viva. Me ocupo em me observar em silêncio. Aprendo a criar no escuro.
Você passa longos meses pensando em mim. Você pensa que talvez eu nunca mais volte. Você acha que sua coragem, força e perseverança estão atrelados a mim. Quando eu sumo, você se sente covarde, fraco e quer desistir.
Eu vim pra cá porque aí fora havia distração demais e eu fazia coisas demais e eu tentava ser menor e menos gorda e menos peluda e mais simpática e mais comercialmente viável pra você mas o estresse disso tudo me deixava ainda mais impaciente e raivosa e acabava sempre comigo violentamente arrancando sua cabeça fora, sangue pra todos os lados, uma mão ensanguentada aqui, um braço sanguinolento acolá e eu de pé, a boca suja de sangue, meus pêlos sujos de sangue, e minha cara apologética e idiota.
Mas também, o que você queria? Você destruiu o meu habitat inteiro e fez desaparecer tudo que me alimentava!
Teve também aquela vez que você tentou viver comigo mas aí você fez uma coisa que eu não gostei e – não pude evitar – mordi você, e sua amiga, e quebrei todos os ossos dos dois. Eu não ouvi os gritos. Eu estava cega de ódio e prazer.
Eu não estou dizendo que é fácil viver comigo. Eu mesma precisei ir me aproximando de mim aos poucos. Fiz oferendas a mim pra ganhar minha confiança. Respeitei meu espaço. Assim fui aprendendo a viver comigo.
Minha raiva era baseada na ilusão de que sem você eu não existia. Sua loucura era baseada na ideia de que eu tinha superpoderes.
Aqui, descubro que sou um universo inteiro, enquanto aí fora você percebe que também é forte e magnífico, e também sobrevive.
Dia desses, quando eu sair daqui de dentro, e o sol estiver brilhando no céu azul, você vai me ver ao longe com minhas crias e pensar que eu renasci e perceber que você também não é mais o mesmo.
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